Um estudo recente revelou que ruminar problemas ou preocupar-se em excesso está diretamente ligado a queixas de memória e falta de atenção, mesmo sem défices reais. Para quem lidera uma PME, isso pode significar decisões menos assertivas, confiança abalada e equipas em stress. A boa notícia? Há formas concretas de quebrar este ciclo.
Bem, deixe-me começar por aqui, imagine que está numa reunião importante. O cliente faz um comentário ambíguo sobre o prazo de entrega e, de repente, a sua mente agarra-se àquela frase como um cão a um osso. “Será que ficaram insatisfeitos? E se perdermos o contrato? E se a concorrência já está a trabalhar noutra proposta?” Horas depois, ainda está a reviver a cena, a analisar cada palavra, cada tom de voz. E no dia seguinte, não se lembra do que discutiu com a equipa na manhã anterior, não porque não tenha prestado atenção, mas porque a sua cabeça esteve ocupada a remoer algo que já não tinha solução.
Isto tem nome, pensamento negativo repetitivo (RNT, na sigla inglesa). Trata-se de um loop mental de preocupações sobre o futuro (“e se…?”) ou ruminações sobre o passado (“porque é que eu disse aquilo?”), que surge de forma intrusiva, é difícil de interromper e, acima de tudo, não acrescenta valor. Segundo um estudo publicado em 2020 na BMC Psychiatry, este padrão não afeta apenas o bem-estar emocional, está diretamente associado a uma pior perceção da função cognitiva. Ou seja, a sensação de que a memória, a atenção e a capacidade de raciocínio estão a falhar. E o mais relevante, isto acontece mesmo quando não existem défices objetivos. O cérebro pode estar a funcionar bem, mas o RNT faz com que pareça que não.
No dia a dia de quem lidera uma PME, isto infiltra-se de forma subtil mas constante. Não é apenas “pensar muito”; é um padrão repetitivo, intrusivo e difícil de desligar. Pode manifestar-se como ruminação, “devia ter escolhido outro fornecedor”, ou como preocupação, “e se este projeto falha?”. O problema não é pensar sobre decisões; é ficar preso nelas. Quando isso acontece, a tomada de decisão torna-se mais lenta, a comunicação perde clareza e o stress começa a espalhar-se pela equipa.
O estudo analisou 491 adultos com mais de 60 anos e encontrou um dado particularmente relevante, 24,2% relataram queixas de memória. Mais importante ainda, o RNT foi o único fator psicológico associado a essas queixas, mesmo quando considerados outros elementos como neuroticismo, preocupação isolada, ruminação ou propósito de vida . Em termos práticos, quanto mais a pessoa ficava presa em ciclos de pensamento negativo, pior avaliava a sua própria capacidade cognitiva. No modelo final, cada aumento de um desvio-padrão no RNT estava associado a uma diminuição significativa na perceção de função cognitiva, um impacto que não é negligenciável.
Traduzindo isto para a realidade de uma PME, se está constantemente a ruminar ou a antecipar cenários negativos, é provável que comece a duvidar da sua própria clareza mental. E essa dúvida tem consequências. Pode levá-lo a evitar riscos, a delegar menos, a adiar decisões ou a cair em análise paralisante. Num contexto onde a agilidade é crítica, isto não é apenas desconfortável, é perigoso.
O impacto não fica apenas em si. Um líder que vive em estado de preocupação constante transmite isso, mesmo sem querer. A equipa sente, ajusta-se, e o resultado tende a ser mais tensão, menos iniciativa e mais erros. Ao mesmo tempo, o RNT distorce a perceção de risco, amplifica ameaças e reduz a confiança nas próprias capacidades, o que pode levar à perda de oportunidades que, em condições normais, seriam aproveitadas.
A boa notícia é que o RNT não é um traço fixo, é um hábito mental. E hábitos podem ser treinados. Uma das estratégias mais eficazes é criar distância temporal, definir momentos específicos para lidar com preocupações. Em vez de tentar “não pensar”, o que raramente funciona, a ideia é adiar o pensamento, “trato disto mais tarde”. Outra abordagem passa por introduzir pequenas pausas de atenção plena ao longo do dia, momentos curtos, de um ou dois minutos, para regressar ao presente e interromper o ciclo automático. Não resolve tudo, mas quebra o padrão.
Também ajuda questionar os pensamentos de forma ativa, isto é um facto ou uma suposição? Está a ajudar-me ou apenas a aumentar o ruído? Qual é o cenário mais provável, não o mais dramático? Este tipo de reestruturação cognitiva reduz a carga emocional e devolve algum controlo. E, muitas vezes subestimado, o movimento físico, uma simples caminhada, pode ser suficiente para “desbloquear” a mente quando esta entra em loop.
Se quiser sinais práticos de alerta, são geralmente estes, rever decisões várias vezes sem nova informação, dificuldade em desligar do trabalho mesmo fora de horas, ou a sensação frequente de “nevoeiro mental”. Não são falhas cognitivas, são excesso de ruído.
No fundo, o RNT não é fraqueza. É um mecanismo natural que, em contextos de pressão e incerteza, fica hiperativo. Mas liderar exige clareza, e clareza exige espaço mental. O estudo mostra que reduzir este padrão pode melhorar a forma como perceciona a sua própria capacidade, e isso, por si só, já muda a forma como decide, comunica e lidera.
Comece pequeno, identifique um loop recorrente, teste uma estratégia durante uma semana e observe o impacto. Porque, no fim, a clareza mental não é um dom, é prática.
O pensamento negativo repetitivo não é apenas desgaste emocional, é um padrão mental que interfere diretamente com a forma como perceciona a sua memória, atenção e capacidade de decisão. Como mostra o estudo de Schlosser et al. (2020), publicado na BMC Psychiatry, quanto mais tempo passamos presos em ciclos de preocupação e ruminação, maior é a probabilidade de sentirmos que a nossa função cognitiva está a falhar, mesmo quando, objetivamente, não está . Para quem lidera, isto traduz-se em menos clareza, mais hesitação e maior impacto na equipa. A boa notícia é que, sendo um hábito mental, o RNT pode ser trabalhado. Reduzir este ruído interno não é apenas uma questão de bem-estar, é uma vantagem competitiva.